quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Homem Flexível

Jorge Forbes


Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, agosto de 2008 - ano 2 - número 17

Chega ao fim o Homem Macho, de valores fixos, substituído
agora por alguém capaz de enfrentar todas as situações

O Homem Flexível seria um nome possível do homem atual. O Homem Flexível vem substituir o Homem Macho, aquele que era empertigado, sempre igual em todas as situações. Enquanto o Homem Macho respondia a uma época de valores fixos, padronizados, hierárquicos, que tipificaram o mundo industrial e criaram elogios do gênero “Fulano tem um caráter inflexível, ele é sempre o mesmo...”, o Homem Flexível seria aquele capaz de estar pronto para todas as situações. 


Ser homem, até relativamente pouco tempo atrás, consistia, superficialmente, em adotar um comportamento quase militar, que era o modelo subentendido em palavras de ordem caricaturais do tipo “ homem não chora”. O que acontece quando essas ferramentas da etiqueta social machista ficam obsoletas? Ora, é fácil entender que os homens possam se sentir ou deslocados - ao insistirem nas velhas fórmulas que não funcionam mais - ou feminizados, por se afastarem dos modelos que lhes asseguravam o pertencimento ao seu gênero sexual. 


Os deslocados são os tipos mais fáceis de perceber: ficam deprimidos, reclamam dos novos hábitos, se reúnem em confrarias. Os que se sentem menos viris são mais complexos e podem, paradoxalmente, para se assegurarem enquanto homens, optarem por uma posição homossexual. Como assim? Vejamos: o modelo disciplinar machista da era anterior, embora ultrapassado, ainda sobrevive como identidade cultural. 



Um homem, ao se ver sensibilizado a novas posturas, em especial, ao ter que incluir no cálculo de seu cotidiano fatores até então desprezados pelo modelo tradicional, como a intuição, o bom ou o mau gosto, o enamoramento, pode se angustiar ao viver essas situações como passivas, ou seja, que fogem ao seu controle ativo tão próprio à velha maneira masculina de ser. Em resposta, podem ativamente “vestir” essas sensibilidades, querer administrá-las ativamente, controlá-las, e, em decorrência, preferirem a homossexualidade. 


É o que por vezes explica o esforço da barriga tanquinho, o peito bombado, o cabelo de reco, características tão militares, novamente. Não é supérfluo lembrar que a homossexualidade, palavra etimologicamente composta de “homo”’, “igual”, e “sexualidade”, é contrária à heterossexualidade, a vivência da diferença, do que não é igual. Nenhum julgamento moral aqui de certo ou errado, melhor ou pior, uma vez que nada mais próprio ao humano que a falta de um modelo justo sexual. Sobre isso insistia Jacques Lacan: a relação sexual não existe – relação no sentido de proporção correta –, fato que nos obriga a inventá-la todos os dias, com os meios que dispomos. 

O Homem Flexível, pronto a todas as circunstâncias, não pode mais basear sua identidade na tradicional dicotomia ativo/passivo.

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